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Publicado em fevereiro 28th, 2018 | por Seu Garçom

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Hidromel, a primeira bebida alcoólica do mundo

“Talvez o primeiro porre da humanidade tenha sido de hidromel”

Beber talvez seja o primeiro grande feito da humanidade após o domínio do fogo.

É impressionante como a arte de se confeccionar as mais diversas bebidas foi se aprimorando de acordo com as culturas e necessidades das civilizações globo afora. Cada povo, uma história. Cada história, certamente uma bebida como testemunha.

Bebedor aficcionado e curioso que sou, lembro vagamente de já ter feito o seguinte questionamento a um antigo parceiro de gole: “Porra, maluco…quem inventou o goró?”. Ao que o filósofo contemporâneo, no alto de seu delírio etílico, responde: “Não sei…mas vou tomar outra pra honrar o caboclo”.

Já sóbrio, resolvi sanar a curiosidade e levantar algumas informações acerca das primeiras bebidas que se tem relato na história da humanidade. Como eram feitas, por quem eram consumidas e até mesmo as situações do cotidiano nas quais tais bebidas eram mais convenientes aos seus bebedores. E foi assim que cheguei ao Hidromel, certamente a bebida mais antiga já relatada nos anais da civilização (sem trocadilhos).

Hidromel, uma dose de História

A bem da verdade, não da pra afirmar categoricamente que o Hidromel seja a bebida mais antiga do mundo, uma vez que o vinho e a cerveja são leais companheiros da psique humana há milhares de anos. Contudo, o Hidromel leva algumas vantagens consideráveis nessa disputa: a praticidade na produção e a disponibilidade dos ingredientes empregados em sua fabricação.

Iluminura do manuscrito francês Li Livres dou Santé (século XIII) FONTE: Cena Medieval

Proveniente da fermentação do mel diluído em água, o hidromel é representado como a bebida favorita dos Deuses nórdicos, bem como considerada sagrada entre os Vikings. Pra se ter uma ideia do nível de romantização da bebida, o termo “lua-de-mel” foi criado a partir de uma lenda em que se dizia que os casais, após o casamento, se embebedavam de Hidromel durante um ciclo lunar para que assim pudessem obter filhos homens.

A história supõe que o hidromel tenha se reinventado ao longo de sua longeva vida. O uso do mel na alimentação humana é milenar, o que abre um precedente bem plausível de que a bebida está presente no cotidiano de nossos antepassados de diferentes formas, sofrendo metamorfoses de acordo com as necessidades dos mesmos.

Para os gregos, o mel era uma dádiva que descia do céu como o orvalho, antes de ser reunido pelas abelhas. Era fonte de força, virilidade e inteligência, além de prolongar a vida. Para os Vikings, seu derivado mais famoso, o Hidromel, era simplesmente a bebida escolhida pelos deuses. Já os Celtas eram tão convictos de sua miraculosidade que acreditavam em um rio de Hidromel atravessando o paraíso, enquanto os anglo-saxões os incumbia de imortalidade, poesia e conhecimento.

O processo de produção do “Vinho de mel”

Para reforçar o título de “A primeira bebida do mundo”, o Hidromel tem registro de consumo datado de 10.000 anos atrás, quando o homem ainda era nômade. Esse mesmo homem, ao recolher o mel, o misturava à água que carregava. De maneira lenta, a bebida sofria um processo de fermentação com as leveduras selvagens (presentes no ar e na boca), transformando o açúcar em álcool. Esta obra do acaso possibilitou que o Hidromel fosse criado, disseminado e cultuado por diferentes civilizações e culturas – apesar da inevitável associação aos Vikings.

A fabricação do Hidromel permitiu que um termo errôneo fosse popularizado entre os admiradores da bebida: o “vinho de mel”. Na verdade, o processo de produção do vinho e do Hidromel são bem semelhantes, o que ajudou na disseminação do apelido. Seu teor alcoólico varia entre 6% e 16% vol. (podendo beirar os 20% vol.) e harmoniza perfeitamente com aves, peixes, comidas apimentadas e carnes vermelhas/exóticas, tal qual o javali. Mais VIKING que isso impossível!

Uma verdade absoluta entre os fabricantes de Hidromel é a de que para se obter um produto de qualidade inquestionável, o processo não é fácil. Geralmente, o teor alcoólico mais aceitável para a bebida é de 12% vol., e isso implica uma série de cuidados que devem ser tomados para que o procedimento não desande. É recomendado muito cuidado na escolha do mel, dando preferência – se possível – ao mel de laranjeira ou de eucalipto. Isto porque o mel silvestre é uma escolha arriscada, podendo ser de ótima qualidade ou proveniente de abelhas que possam estar em lixões ou qualquer outro ambiente insalubre, nunca se sabe.

Outro cuidado primordial na fabricação da bebida é a proporção água/mel, que deve estar em torno de 80% água e 20% mel. A adição de leveduras e sais nutrientes são imprescindíveis para facilitar a ação de microrganismos conhecidos como Saccharomyces cerevisiae, organismos estes que estimulam a multiplicação dos fermentos presentes no ar, no pólen e no próprio mel, o que acelera a transformação do açúcar do mel em álcool.

O tempo de maturação do Hidromel na produção caseira varia de oito meses a um ano. Contudo, alguns produtores indicam um envelhecimento de um a três anos em barris de carvalho, para se obter uma bebida de qualidade impar, de sabor inquestionável. A ideia é a mesma do vinho: quanto mais velho, melhor!

Hidromel descansando em barris de carvalho FONTE: Pompéia Hidromeis

Adentrando o nicho da criatividade, o Hidromel vai além da receita padrão de mel, água e levedura. Existem aproximadamente 10 classificações da bebida que podem surpreender justamente pela incrível nuance de seus sabores. Exemplo disso é o Melomel, um derivado do Hidromel que leva a adição de frutas. Completamente o oposto do Capsicumel, uma outra vertente da bebida com a infusão de pimentas em sua receita.  O mesmo pode ser doce ou seco, gaseificado ou não e ainda passar por um processo de clarificação, deixando-o com um aspecto límpido.

Pra não deixar ninguém na mão, listamos as classificações abaixo:

  • Tradicional: feito com água, mel e fermento;
  • Cyser: feito com maçãs ou seu suco;
  • Pyment: feito com uvas ou seu suco;
  • Melomel: feito com quaisquer outras frutas ou sucos;
  • Metheglin: feito com quaisquer temperos ou ervas;
  • Braggot: feito com cereais maltados;
  • Sack mead: Hidromel mais forte, feito com uma quantidade extra de mel;
  • Capsicumel: feito com pimentas;
  • Hippocras: feito com mel, uvas e temperos;
  • Mora: feito com amoras;
  • Rhodomel: feito com pétalas de rosas, muito famoso no império romano.

O Hidromel no Brasil

Valhala hidromel, de Campos do jordão

A produção de Hidromel no Brasil ainda não tem o vigor e agressividade característicos dos grandes Vikings.

O cenário atual é bastante similar ao que ocorreu com as cervejarias artesanais há poucos anos. Um maluco qualquer (geralmente um nerd), apaixonado pela bebida, se propõe a fabricá-la em casa mesmo. Faz um primeiro experimento, sai uma bela de uma porcaria, mas ele não desiste. Pede ajuda a Odin, invoca a força de Thor e, finalmente, acerta a mão na proporção água/mel, escolhe bem o fermento, respeita o tempo de descanso da bebida…Enfim, apresenta algo realmente bom de se beber. A partir daí, surge a ideia de se comercializar o que antes era um mero experimento. E o mais incrível é que surgem outros malucos (feito você) dispostos a pagar por aquilo que, a princípio, foi produzido despretenciosamente. É o hobby se transformando em bu$ine$$…

O ônus disso tudo é que dificilmente você encontrará Hidromel industrializado para se vender em lojas físicas. O principal mercado continua sendo o online, onde se encontra facilmente o Portfólio dos produtores artesanais.

Hidromel Bee Gold, de Sorocaba. FONTE: Cena Medieval

O preço médio de cada garrafa costuma ser a partir dos R$40,00.

A bebida dos Deuses e a cultura Geek

Tenho outras paixões na vida além da bebida. Cinema e games compõem a parte nerd que habita em meu ser, portanto, me atento sempre às novidades e linguajar deste cenário cada vez mais em evidência, apesar de não me considerar um Geek “raiz”.

E se existe uma bebida alcoólica que divide espaço com dragões, lobisomens, sereias, Deuses e mortais dentre outros seres míticos no imaginário nerd, certamente essa bebida é o Hidromel. Nosso querido goró Viking já foi citado por grandes ícones do mundo nerd como  J.R.R Tolkien (autor de O senhor dos anéis O hobbit),  J.K Rowling (autora de Harry Potter) e C.S. Lewis (autor de As crônicas de Nárnia). Inclusive as três obras aqui citadas ganharam versões cinematográficas e o Hidromel também se fez presente em Hollywood. Quem já assistiu A lenda de Beowulf deve ter se atentado às várias bebedeiras protagonizadas pelos guerreiros nórdicos, sempre regadas à Hidromel em fartura.

No universo gamer nosso querido mel fermentado também se faz presente. Um dos grandes sucessos de vendas – e aclamado pela crítica especializada –  dos últimos tempos (e particularmente um dos meus games favoritos), o jogo The Witcher 3: Wild Hunt praticamente nos mergulha em um enorme chifre abarrotado de Hidromel do início ao fim do game. As citações à bebida dos deuses são incontáveis, com direito a uma missão (SPOILER) onde há envenenamento generalizado de barris de Hidromel. Simplesmente sensacional.

O Hidromel é presença constante em The Witcher 3: Wild Hunt

Que Odin abençoe suas bebedeiras e Skol* a todos!

*Palavra de origem escandinava utilizada até hoje pelos povos nórdicos na hora de realizar um brinde. É o equivalente à “saúde”aqui no Brasil.

 

 

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